Reflexões sobre atenção e sobrevivência no caos digital
- Luiz Eduardo Bedoia
- 12. Dez. 2025
- 3 Min. Lesezeit
Aktualisiert: 26. Dez. 2025

Há dias em que acordo com a nítida sensação de estar vivendo entre dois mundos que não dialogam mais. Eu, nascido em 1979, faço parte de uma geração rara: a última a viver uma infância verdadeiramente analógica, com todas as suas lacunas férteis, seus silêncios, seus tédios formativos, antes de sermos engolidos pela avalanche digital que redefiniria o século. Não é exagero dizer que, sem querer, nos tornamos guardiões de um conhecimento que não sabíamos que estava em risco: o ritmo mais lento da vida, os rituais de concentração, a relação profunda com o tempo.
A última geração analógica
Cresci antes das notificações. Antes do medo de ficar “por fora”. Antes de transformarem nossas mentes em territórios disputados por algoritmos geopolíticos, interesses privados e campanhas psicossociais camufladas em “conteúdo”. Hoje compreendo que meu corpo viveu uma espécie de preparação involuntária: experimentou um mundo onde a atenção era inteira — para depois testemunhar, quase em câmera lenta, a sua erosão.
Da transição vieram maravilhas: acesso ao conhecimento, comunidades globais, ferramentas de criação que antes eram privilégio de poucos. Mas junto delas vieram os efeitos colaterais: a hipertrofia das bolhas, a viralização do ressentimento, a economia do ódio, o sequestro do foco, o vício na dopamina gerada pelos vídeos curtos e aleatórios que derretem o córtex pré-frontal.
Nós — os que atravessamos essa fronteira — somos prova viva de que há outro jeito de existir.
Por isso, temos uma responsabilidade
Carrego a convicção de que nós, os “análogos por origem”, temos um papel histórico. Fomos os últimos a viver a experiência de um mundo onde as coisas levavam tempo. Onde o silêncio era comum. Onde o tédio — esse bem tão subestimado — era motor de criatividade.
E justamente por termos vivido esses dois lados, cabe a nós liderar o movimento de reconexão com os rituais:
o preparo meticuloso de um café por métodos que exigem paciência;
a montagem minuciosa de um prato da cozinha slowfood que respeita sazões, texturas e intervalos;
o processo de limpeza de um vinil para depois secá-lo e colocar na vitrola com o posicionamento manual da agulha na faixa inicial e ouvir o disco inteiro como fora concebido pelo artista, uma narrativa completa com início, pausa no meio para virar o lado e terminar no lado B.
o cultivo de plantas que nos lembram que nada cresce no ritmo das notificações;
o silêncio deliberado que permite que a mente volte a pulsar no próprio compasso.
Não é nostalgia... é sobrevivência.
Rituais como forma de rebelião
Recuperar o ritual hoje é quase um ato político. É dizer: "não vou ser moldado pela cadência da timeline". É reconhecer que as big techs descobriram o que filósofos, educadores e líderes espirituais já sabiam há milênios: a atenção é o recurso mais valioso do ser humano. E por esse motivo a disputam como quem disputa petróleo.
Quando volto à prática de ouvir um disco do início ao fim, sinto uma espécie de cura. O mundo deixa de ser um conjunto de estímulos estilhaçados e volta a ser uma narrativa contínua, legível, respirável.
É o mesmo que sinto quando rego minhas plantas ou uso um moedor manual de café em busca da espessura perfeita para um espresso ou ainda quando espero a água atingir os 94 graus exatos antes de cair no V60.
Encaro esses gestos mínimos hoje como formas de resistência.
A lição que fica
Se existe algo que minha geração pode oferecer a quem vem depois não é nostalgia por um mundo que não volta mais. É Método. Ritmo. Critério. É a lembrança de que o foco não é um talento — é uma prática cotidiana. E que o mundo digital pode ser ferramenta extraordinária, desde que não deixemos que ele nos transforme em produtos do que deveria nos servir.
E continuo acreditando — com a teimosia dos que já viram a vida funcionar de outro jeito — que ainda é possível manter o essencial vivo. Basta que escolhamos, todos os dias, construir uma vida feita de presença, profundidade e rituais. Porque, no fim das contas, cultivar rituais é cultivar humanidade e o futuro não precisa ser mais rápido — só precisa ser mais nosso.























































































































Kommentare