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John Bonham: o pulso que define o Led Zeppelin

  • Autorenbild: Luiz Eduardo Bedoia
    Luiz Eduardo Bedoia
  • 29. Dez. 2025
  • 3 Min. Lesezeit

Há músicos cuja importância se mede pela técnica. Outros, pela inovação formal. John Bonham pertence a um grupo mais raro: o dos artistas que redefinem o papel estrutural de seu instrumento dentro de uma linguagem inteira. Sua relevância para o Led Zeppelin — e para o rock como um todo — não está apenas na potência ou na virtuosidade, mas no fato de ter deslocado a bateria do campo do acompanhamento para o centro gravitacional da música.


Sem Bonham, o Led Zeppelin não soaria apenas diferente. Ele simplesmente não existiria como ideia sonora.


Desde o álbum de estreia, isso já está evidente. Em “Good Times Bad Times”, o trabalho de bumbo rompe com o padrão do rock de fins dos anos 1960. Não se trata de preenchimento rítmico, mas de imposição de identidade. A bateria não sustenta a música: ela a empurra, a comprime, a define.


Essa lógica atinge seu ponto máximo em “When the Levee Breaks”. Bonham não marca o tempo; ele cria um espaço físico. O som captado na escadaria de Headley Grange transforma a bateria em ambiente, em massa sonora. Riff, vocal e harmônica orbitam aquele pulso pesado e inevitável.


Bonham compreendia algo essencial: som é linguagem. Sua afinação aberta, os timbres graves, a escolha por pratos grandes e uma dinâmica extrema fazem da bateria uma extensão direta do corpo. Há força, mas há também silêncio, respiro, microvariações de tempo. O Led Zeppelin soa sempre à beira do descontrole — e é exatamente isso que lhe confere tensão e humanidade.


Em “Kashmir”, por exemplo, a bateria não segue o riff; ela dialoga com ele, criando uma marcha assimétrica, quase ritualística. O impacto não vem da velocidade ou do exibicionismo, mas da insistência hipnótica.


Reduzir Bonham a um arquétipo do hard rock pesado é ignorar uma parte central de sua linguagem. Seu groove é profundamente enraizado no blues, no shuffle e no swing. Isso fica evidente em “Fool in the Rain”, onde o half-time shuffle revela controle refinado de subdivisão e dinâmica. O peso, aqui, não vem da força bruta, mas do domínio absoluto do tempo.


Mesmo quando flerta com o funk em “The Crunge”, o resultado é deliberadamente estranho. Bonham nunca buscou elegância; buscou verdade sonora.


No Led Zeppelin, a bateria também é narrativa. Em “Achilles Last Stand”, Bonham sustenta uma progressão épica contínua, sem descanso, como se fosse o próprio fôlego da música. A bateria deixa de ser base rítmica e se torna personagem dramático — um modelo que influenciaria gerações de bateristas no hard rock, no metal e além.


O legado de John Bonham, no entanto, não é um manual técnico nem um conjunto de frases copiáveis. É uma ética sonora: a recusa da assepsia, a valorização do gesto físico, a aceitação do risco e do erro como parte da expressividade. Bonham representa um equilíbrio hoje raro entre potência e humanidade.


Por isso, a decisão de encerrar o Led Zeppelin após sua morte, em 1980, não foi apenas simbólica. Foi o reconhecimento de que aquela banda possuia uma química indivisível. Plant, Page, Jones e Bonham formavam um organismo sonoro interdependente. Retirar Bonham da equação não significaria seguir adiante de outra forma, mas destruir o próprio princípio de funcionamento do grupo.


Sem John Bonham, o Led Zeppelin não perderia apenas seu baterista.

Perderia seu pulso, seu peso, sua respiração — perderia, em última instância, sua razão de ser.





 
 
 

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