Emicida Racional Vol. 2 – Mesmas Cores & Mesmos Valores
- Luiz Eduardo Bedoia
- 11. Dez. 2025
- 3 Min. Lesezeit

Há discos que chegam para ocupar espaço nas prateleiras. E há discos que chegam para disputar espaço no imaginário. “Emicida Racional Vol. 2 – Mesmas Cores & Mesmos Valores” pertence, indiscutivelmente, ao segundo grupo.
É impressionante como, quase 15 anos depois de lançar a mixtape Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida, Até que Eu Cheguei Longe…, Emicida ainda encontra formas de nos desarmar. O subtítulo não é gratuito: ao dialogar diretamente com Cores & Valores (2014), dos Racionais MC’s, o rapper realiza um gesto de filiação explícita. Ele se inscreve como uma dobra importante na cartografia musical da periferia, afirmando que sua obra não apenas deriva, mas continua e reinterpreta essa tradição. Como ele próprio resume: “Quando os caminhos se confundem, é necessário voltar ao começo.”
Neste álbum, Emicida não apenas reverencia a linhagem da qual descende; ele se reconhece como parte ativa dessa herança e a utiliza como força motriz para avançar em direção ao íntimo.
A abertura do disco é um rito de luto em real time. Emicida organiza uma sequência de áudios enviados pela mãe ao longo do cotidiano — registros simples, carregados de afeto — e expõe o modo como essa presença sonora gradualmente se dissolve em silêncio. Os áudios são colocados quase sem tratamento, como se viessem direto do viva-voz, produzindo uma sensação de intimidade não mediada. O vazio que emerge desemboca em seu próprio choro, marcando a passagem brutal entre memória e perda. O piano sensível de Amaro Freitas costura esse processo como uma trilha de transmutação estética: o luto deixa de ser apenas dor e se torna reorganização afetiva e política. A partir daí, Emicida reafirma que seguir vivo é um gesto de responsabilidade histórica: honrar a ancestralidade, sustentar a boa luta e enfrentar, com força e resiliência, os mesmos inimigos que atravessam a experiência do povo negro e periférico no Brasil.
Superado o mergulho íntimo da abertura, o álbum muda de temperatura: da dor individual para o diagnóstico coletivo. Emicida recupera a verve dos primeiros anos para confrontar a violência policial e o racismo estrutural. O verso “Mal a favela pegou no lápis, a polícia já desceu a borracha” funciona como microcosmo do país, condensando a criminalização da criatividade, da mobilidade e do simples ato de existir.
Musicalmente, o disco reflete a sombra formativa dos Racionais — beats secos, palavra em primeiro plano — mas filtrada pela linguagem própria de Emicida. A variação sutil entre a voz falada e o quase-canto intensifica a carga emotiva sem resvalar no melodrama, enquanto os graves arredondados, com leve saturação, remetem ao soul politizado dos anos 70. A crítica social aqui não é episódica, mas herdada; é continuação de uma gramática política forjada pelos Racionais nos anos 1990, agora atualizada para um Brasil em que a violência do racismo estrutural não apenas persiste, mas se sofisticou.
Se AmarElo foi o gesto de reconstrução afetiva — o calor, a costura, o abraço — Racional Vol. 2 opera no sentido inverso: consolida postura. A estética é seca. Menos arco-íris, mais lâmina. Menos conciliação, mais enfrentamento. A produção mobiliza referências ao soul e ao afrobeat não como homenagem nostálgica, mas como memória convertida em invenção. O passado é convocado como ferramenta, não como culto.
Emicida demonstra aqui uma habilidade muito particular: ser íntimo sem ser confessional, político sem ser panfletário, espiritual sem ser místico. O disco olha para trás sem dar passos nessa direção. Honra os mestres enquanto abre espaço para o que ainda virá.
Um disco, simplesmente, foda!























































































































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